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"A primeira ação em larga escala empreendida pelos trabalhadores no governo Geisel começou em maio de 1978 com uma greve branca... 2500 metalúrgicos da fábrica de caminhões e ônibus Saad-Scania... bateram o relógio de ponto, assumiram seus postos, cruzaram os braços, sentaram-se e recusaram-se a ligar suas máquinas".
Este texto se encontra no livro Brasil: de Castelo a Tancredo, escrito pelo brasilianista Thomas Skidmore, editado pela Paz e Terra, em 1991.
Os trabalhadores brasileiros começavam a se reorganizar, depois de muitos anos sendo reprimidos pelos governos militares.
É nesta conjuntura que tem início o processo a que se deu o nome de “Novo Sindicalismo”. Os operários retomam as suas ações mais organizadas e de resistência que já tinham tentado em Contagem e Osasco.
A visão de distensão rumo à democracia ajudou a concretizar as manifestações que viriam a acontecer em 1978, mas o que parece ter entornado os fatos a partir dali foi a situação econômica do país.
Após as crises do dólar e do petróleo no início dos anos 70, os investimentos internacionais diminuiriam, os juros aumentariam e internamente a inflação pularia de 18,5% a.a. no início do governo de Geisel e para 40% a.a. no seu final.
Opondo-se ao considerado pretenso discurso de “abertura” dos militares, jornais conhecidos como “nanicos” sobreviviam às custas de poucos militantes ousados.
“Movimento” era um daqueles jornais, e já na posse do General João Figueiredo, em março de 1979, declarava que “A ditadura não é mais aquela”, afirmando que "o povo saía novamente às ruas reivindicando melhores condições de vida e maior participação nos destinos do país".
É assim que o movimento operário restabelece seus vínculos com a política partidária, a partir da permissão provisória do Partido dos Trabalhadores em 1980.
Nas eleições de novembro de 1982 para governos de Estado, Senado, Câmara Federal e Assembléias Legislativas o PT conseguiu 1.589.641 votos; não elegeu nenhum governador, mas mostrou que detinha, pelo menos na simpatia, 3.3% dos votos dos eleitores, o que o classificava como 5° partido brasileiro, atrás somente do PMDB, PDS, PDT e PTB.
No próximo post traremos mais detalhes dos textos do jornal O Inimigo do Rei tratando dos conflitos entre os anarquistas e parte da esquerda, chamada por eles de autoritária, ou simplesmente marxista. Inclusive com as críticas à criação de um novo partido de trabalhadores, como já vimos em posts anteriores.

criado por Jornalismo - FCS
03:13:31 
O jornal O Inimigo do Rei foi muito criticado, por muita gente, por colocar em suas páginas um número considerável de textos que abordavam o homossexualismo. Inclusive em suas capas. A mais explícita coloca uma foto com dois homens se abraçando, nus.
Em entrevista, um dos colaboradores paulistas do jornal, Antonio Carlos de Oliveira, deixa mais ou menos claro como eram aquelas críticas:
"O pessoal de São Paulo não sei porque cargas d’água, nem como isto acabou de fato, mas o pessoal de SP tinha uma visão meio leviana, porque ficava um papo assim: Tem um grupo de homossexual lá na Bahia, os caras fazem o jornal, não sei o que, e ficava uma coisa meio estranha, né, porque parece que pelo fato do cara ser homossexual aquilo diminuía a importância daquilo que era feito na verdade".
Também, conforme depoimento do militante anarquista do Rio de Janeiro, Milton Lopes, um "artigo de Edgar Rodrigues de impacto foi publicado e também era uma crítica a, em sua opinião, excessiva ênfase que os redatores concediam à questão do homossexualismo".
Relendo hoje o jornal não me parece que os "redatores" tivessem dado ênfase excessiva ao tema homossexualismo. Na realidade, alguns dos colaboradores eram, e ainda são, homossexuais. E, obviamente, escreviam sobre o tema.
Não dá para dizer, por exemplo, que há mais textos sobre homossexualismo do que sobre o movimento operário. E nem parecia justo, pelo menos aos anarquistas baianos, fazer estatísticas para equilibrar os temas dentro das edições do jornal.
No próximo post colocaremos um dos textos sobre o assunto que gerou críticas ao jornal.

criado por Jornalismo - FCS
15:29:20 
...continuação do post anterior.
A partir do quinto número de abril/maio de 1979, Edgar Rodrigues engrossa a equipe do expediente do jornal que traz de sua autoria o artigo “As Multinacionais Vermelhas” no qual falava do fanatismo bolchevista na Rússia, onde
“a massa faminta e marginalizada acredita que algum dia, não muito distante, serão livres. E, tal como os católicos que acreditam que a Bíblia contém tudo sobre as suas salvações, sem nunca a ter lido, os crentes bolchevistas também têm a ‘certeza’ de que naqueles três grossos volumes de O Capital – que nunca leram – está escrito tudo sobre a libertação do proletariado, a ‘raça’ eleita pelo profeta judeu, o camarada Karl Marx”; o mesmo número traz ainda um longo artigo sobre o 1° de Maio e os mártires de Chicago.
Sua progressão [tavares: faltou informar o porquê? No início não se intitulavam anarquistas, mas anti-monarquista, em função da ditadura militar reinante!!!] para o anarquismo caminha em passos rápidos e O Inimigo do Rei se tornará o porta voz do anarquismo baiano, carioca, paulista e gaúcho [tavares: faltou comentar o congresso em Santa Catarina, que definiu essa união nacional]; a partir do número sete ele passa a ser uma iniciativa desses quatros estados. Os anos 1970 são marcados pela irrupção de liberdades sufocadas e pelas ruidosas manifestações de movimentos da antipsiquiatria, ecologistas, indigenistas, pacifistas, feministas, de liberdade sexual etc., a contestação da autoridade, no amplo sentido da palavra, é o signo dessa época e se reflete neste jornal; Ricardo Liper, um dos seus articulista, dirá que:
“A única ideologia que responde às questões é o anarquismo [...] Poderíamos dizer que nos anos 70 percebeu-se que chegou a hora do anarquismo. [...] Cada vez mais, esquerda e revolução libertária é sinônimo de anarquismo no mundo inteiro. Estamos assistindo, neste início dos anos 80, um grande enterro. O enterro da autoridade dos magnatas, do político, do padre, do professor, do médico, do cientista, do intelectual, do comunista. Este enterro está sendo sem luto, pois é preciso se enterrar os monstros para que os vivos vivam...” (O Inimigo do Rei, n° 9, jan.-fev./ 1980).
Mas o núcleo de O Inimigo do Rei desarticula-se. Anos mais tarde, os anarquistas paulistas reabrem o antigo Centro de Cultura Social. Em 17/04/1985 a revista Isto É anunciava a retomada de um “centro cultural libertário no bairro do Brás”:
“Antigo bairro popular dos imigrantes italianos, em São Paulo, e reduto movimentos operários do início do século, o Brás [...], voltou a abrigar, domingo passado, 14, o combativo Centro de Cultura social (CCS), uma das raras organizações anarquistas do país que sobreviveram aos últimos 21 anos. Instalados em duas modestíssimas salas as rua Rubino de Oliveira – no mesmo local em que funcionou até 1968 -, 0 CCS pode agora desfraldar livremente a sua histórica bandeira vermelha e preta (“Como nos velhos tempos”, Isto É, 17/04/1985).
“Nossa meta, dizia Jaime agora aos 58 anos, é resgatar e difundir os valores libertários”. Mas essa é outra história...

criado por Jornalismo - FCS
13:53:12 
Nildo Avelino é Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e membro do Centro de Cultura Social – C.C.S. – de São Paulo.
Ele é autor do livro ANARQUISTAS – ÉTICA E ANTOLOGIA DE EXISTÊNCIAS, publicado pela Achiamé em 2004.
Retiramos deste livro os trechos referentes ao jornal O Inimigo do Rei. A primeira parte postamos hoje:
Em outubro de 1977 um grupo de jovens estudantes da UFBa dos cursos de Filosofia, Economia, Comunicação e Ciências Sociais, lançavam em salvador o primeiro número do jornal O Inimigo do Rei, comunicando como uma das suas finalidades essenciais.
“levantar críticas, derrubar mitos, quebrar a falsa indestrutibilidade dos dogmas. Colocar em xeque as ‘verdades’ estabelecidas. Não ter medo de mostrar as contradições, mesmo das posições ditas progressistas” (O Inimigo do Rei, n° 1, out./ 1977).
O seu segundo número aparecido em 1978 já trazia uma marca nitidamente anarquista, bem como seu formato sofrera uma drástica alteração: e então impresso em tamanho tablóide e em papel jornal (seu primeiro número era impresso em papel sulfite com tamanho oficio); entre os destaques da capa, trazia a frase “Não podemos matar as idéias a tiros de canhão, nem tampouco algemas” da anarquista Louise Michel; nela continha dois longos artigos, um sobre o “Maio de 1968” francês e o outro sobre a “História das Esquerdas no Brasil”; este último criticando ferozmente o recente e bastante suspeito livro de Foster Dulles, por conter “erros gritantes” e “imensa falhas”; dizia:
“[...] o professor Foster Dulles fez aquilo que um agente de quarta classe faria: transformou o movimento social brasileiro em 448 páginas de inverdades, colhidas em fontes inidôneas umas, distorcidas outras, apanhadas isoladamente algumas, dando-lhe sentido diferente da realidade, usando para isso as matérias dos jornais comerciais que inseriam as costumeiras ‘notas das autoridades’ muito interessadas em vislumbrar motivos para ‘expulsar os agitadores estrangeiros’. Enfim, só viu ‘lama’ onde um historiador honesto veria lutas de classes comuns às de outros países do mundo [...]. enfim, para encurtar espaço, já que seria preciso escrever um livro para apontar todos os erros, o Sr. Foster Dulles conseguiu escrever a antítese da história do Anarquismo e do Comunismo no Brasil, dos anos 1900 – 1935; uma autêntica história pelo avesso!!!” (O Inimigo do Rei, n° 2, maio/ 1978).
Em seu número seguinte, O Inimigo do Rei conclama a atualidade do voto nulo frente à “eqüinocracia: um governo das patas, pelas patas e para as patas”.
O jornal vai-se tornando amplamente plural e progressivamente mais anárquico; em suas colunas se discutirão assuntos bastantes amplos como anarquismo, sindicalismo, feminismo, o homem do campo, problemas de racismo, homossexualidade, autogestão etc.; trará igualmente uma fonte coloração contracultural que é a marca de seu tempo, valorizando as discussões sobre maconha e aborto, e divulgando a música jovem e rebelde do tropicalismo baiano. No quarto número adquire como cores de capa o preto e o vermelho, e trará uma longa matéria e entrevista com Juan Gómez Casas, secretário da CNT, em Madri, intitulado”O Sindicalismo Anarquista na Espanha”; como também começa a aparecer a seção “Biblioteca” divulgando os livros do anarquista Edgar Rodrigues e do professor Maurício Tragtenberg; ainda neste número se publica artigo intitulado “Homossexualismo e Política” onde se coloca a idéia do homossexualismo como:
“uma possibilidade erótica que está em todos os indivíduos. Existe a possibilidade de se gozar com o mesmo sexo. Dizer que não se gosta é uma questão de repressão sexual. Esta perspectiva existe como existe a possibilidade de se gozar com a própria mão, como com um pedaço de pano, um travesseiro, um colchão de espuma, uma bananeira ou um animal qualquer” (O Inimigo do Rei, n° 4 fev. – mar./ 1979).
Com isso O Inimigo do Rei postulava que o homossexualismo era uma questão política e não de psicanálise, já que se trata de um exercício de liberdade; o artigo denuncia todos os regimes de governo como repressores e perseguidores da prática homossexual, mencionando um “engraçadíssimo psicólogo metido a marxista” que teria afirmado:
“o homem é tese, a mulher é antítese e o filho é síntese, logo o homossexualismo é anti-dialético, idealista e, portanto, deve ser curado”.
continua...

criado por Jornalismo - FCS
13:39:33 
O Inimigo do Rei defendia as idéias anarquistas. De todos os anarquismos, se podemos assim dizer.
Diversas foram as vozes no passado que escolheram o anarquismo como ideário.
Uma delas foi a de um tipógrafo frances chamado de P.J. Proudhon.
Escolhemos um trecho de suas idéias lançadas na última folha da edição de nº 15 do jornal para mostrar o que ele pensava dos governos e do Estado:
"Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude (...). Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido.
É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetido à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado.
Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral !
Oh !, personalidade humana ! Como foi possível deixares-te afundar, durante sessenta séculos , nesta abjeção ?"

criado por Jornalismo - FCS
23:59:25