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...Continuação do dia anterior
A Mídia Alternativa estaria, assim, indo de encontro a um tipo de ideologia. Um esclarecimento tomado de Pierre Ansart poderia nos dizer que ideologia seria essa:
"De fato, uma ideologia sistemática será incessantemente difundida pelos grandes mediadores dos significantes políticos, ideologia conforme a estrutura da propriedade, incitando à conformidade com a ordem estabelecida e a ver a política como um espetáculo pouco sério". (ANSART, Pierre. Ideologias, Conflitos e Poder. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1978, p. 86/87.)
Portanto verificamos a importância de discutir sobre esta mídia numa perspectiva acadêmica do ponto de vista de sua história, quanto ao nível de uma práxis que deve permitir a aqueles que se embrenham na arte do jornalismo se colocarem do lado da população em nome da democracia, resistindo a qualquer ação que possa vir a reduzir a liberdade de expressão.
Estudar e dar visibilidade a um dos jornais que se encontravam dentro desta definição de mídia alternativa é desta forma resgatar justamente a trajetória deste sentimento de resistência que se sobrepõe ao medo de lutar contra o autoritarismo.
Além do mais estamos vivendo hoje um tempo de certezas. Ou melhor, um tempo em que se aparentam mais certezas do que dúvidas. O tempo do que Ignácio Ramonet chamou de Pensamento Único. Do que já foi chamado de Fim da História.
Nas democracias atuais, cada vez mais cidadãos livres sentem-se atolados, lambuzados por um tipo de doutrina viscosa que, imperceptivelmente, envolve todo raciocínio rebelde, inibi-o, desorganiza-o, paralisa-o e termina por asfixia-lo. Essa doutrina constitui o “pensamento único”, única autorizada por um invisível e onipresente controle de opinião. (RAMONET, Ignácio. O Pensamento Único. In MALAGUTI, Manoel (Org.). A Quem Pertence o Amanhã: Ensaios sobre o Neoliberalismo. São Paulo: Edições Loyola, 1997, p. 23.)
Portanto, num momento como esse, nada melhor do que rebuscar na História um pouco de antagonismo. E particularmente quando utilizamos alguma parte da dela em que homens e mulheres se unem, para com uma pitada de humor, e outras de ironia e coragem, tentarem destronar o Rei.
Escolhemos para isto, com um misto de prazer e de necessidade acadêmica, o jornal O Inimigo do Rei.

criado por Jornalismo - FCS
23:36:24
Em outubro de 1977 começava a ser publicado, por estudantes e trabalhadores baianos, um jornal com “nome estranho”, como enfatizou um de nossos entrevistados.
O Inimigo do Rei nasceu, como muitos outros jornais nas décadas de 60 e 70, sob uma ferrenha ditadura iniciada em 1964 com um Golpe Militar apoiado por alguns segmentos da sociedade.
Jornais chamados de alternativos, ou de nanicos, pipocaram em todo o país, em contraposição aos grandes jornais, os quais, com freqüência, tiveram que se calar diante da força das regras impostas pelos ditadores.
Não que os jornais nanicos deixassem de sofrer repressão. Longe disso, pois aqueles que escreviam para os jornais eram também observados e perseguidos. Agentes da polícia política da ditadura deviam mesmo se camuflar dentro das redações daqueles jornais, para no momento certo poderem inclusive apreender as edições, a exemplo do jornal Pif-Paf, que surgiu em 64, e tinha jornalistas como Millor Fernandes em sua redação. A sua 8ª edição foi apreendida e ele deixou de existir, por óbvios motivos econômicos.
Segundo Bernardo Kucinski, "em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos cobravam com veemência a restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos e faziam a crítica ao modelo econômico. Inclusive nos anos de seu aparente sucesso, durante o “milagre econômico”, de 1968 a 1973. Destoavam, assim, do discurso triunfalista do governo ecoado pela grande imprensa, gerando todo um discurso alternativo." (KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionário: Nos Tempos da Imprensa Alternativa. São Paulo: EDUSP, 2003, p. 9/10)
A partir de uma razoável bibliografia, poderemos perceber que aquele tipo de mídia alternativa dos anos 60 a 80 tem também como objetivo mostrar como as elites dominantes criam e manipulam os seus órgãos de imprensa ao seu bel prazer contra as classes trabalhadoras. E porque não, objetivam também apresentar um outro discurso sobre a mídia de massa, discurso este o qual, a maioria das pessoas não estava acostumada a ler, ouvir ou ver.
São aquelas mídias alternativas que serviriam também, por exemplo, como espaço criativo, onde estudantes e profissionais da área de comunicação, ou quaisquer outros interessados, poderiam compreender certos aspectos que envolvem a natureza dos meios de comunicação de massa, como, por exemplo, sua influência sobre a população, como formadora de opinião.
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Amanhã postaremos a segunda e última parte deste pequeno artigo, que será parte da justificativa do projeto sobre O Inimigo do Rei.

criado por Jornalismo - FCS
22:37:31
O texto abaixo é parte da Introdução do Livro Jornalismo de Guerrilha: A Imprensa Alternativa Brasileira da Ditadura à Internet.
Ali o autor, o jornalista Rivaldo Chinem, aborda temas como o Brasil censurado, as publicações proibidas, jornais como O Pasquim, Opinião, Movimento... dos anos 60 aos dias de hoje.
"Quando se busca, no mapa do tempo, referenciais para a história do país, costuma-se dar importância somente aos acontecimentos de maior impacto, aos chamados "grandes fatos", aqueles que a posteridade costuma registrar; e já não nos ensinaram que a história é contada pelos vencedores? Muitas vezes, porém, são os pequenos fatos que demonstram grandeza, tanta que surpreendem a todos nós, acostumados a viver uma lógica cartesiana, em que tudo é contado como uma história com início, meio e fim. E, assim, passamos a valorizar fatos que eram antes considerados como pequenos, dando-lhes uma importância que pode parecer exagerada à primeira vista, mas que ao mesmo tempo talvez possa colocar tudo em seus devidos lugares.
Nos anos 1970 circularam no Brasil numerosos jornais de tamanho tablóide (a metade do usado em jornais convencionais), com um traço comum: a coragem. Vivíamos, é verdade, um período difícil, comandado a ferro e fogo por militares, essa classe social acostumada a cumprir ordens. Esse período durou exatos 21 anos, tempo suficiente para alguém alcançar a maioridade e, quem sabe, criar juízo.
Entre 1964 e 1980 nasceram e morreram cerca de 300 periódicos que se caracterizavam pela oposição intransigente ao regime militar. Até no exterior foram editadas publicações que tinham o mesmo objetivo. Esses jornais ficaram conhecidos como imprensa "alternativa", "nanica", "de leitor", "independente" e underground. Era a única imprensa que fazia perguntas; as demais, que tinham estrutura para fazer a resistência, com poucas exceções se calavam. Uma das funções da imprensa é tentar propor caminhos, e não apenas repassar notícia. É ter uma postura, questionar, fazer perguntas; enfim, realizar o sonho de muitos profissionais do setor: fazer um jornal feito por jornalistas. Fazer uma imprensa alternativa".
Para quem quiser comprar o livro, ai vai o link da Submarino:

criado por Jornalismo - FCS
00:03:46
O Livro, que tem como capa a imagem acima, publicado em 2006, pela Editora Mauad X, junto a EDUFF, a partir de Simpósio organizado pelo GEA/NEC, em 2003, tem o objetivo de abordar as diversas fases em que o anarquismo fez história no nosso país.
Um dos artigos publicados no livro é de Leonardo Pinto. Com o título O Inimigo do Rei, Um Jornal Anarquista, seu artigo resume a monografia de final do curso de graduação em História na UNEB.
Daniel Aarão Reis Filho, um dos organizadores do livro, fala sobre o artigo de Leonardo Pinto:
"Durante anos, entre 1977 e 1988, condicionado pelos movimentos de contracultura dos quais era produto e fator, O Inimigo do Rei infernizou direitas e esquerdas, ousou debochar de tudo e de todos, arriscando, como gostava de dizer, estar fichado nos arquivos da CIA, da KGB 'e suas respectivas sucursais'.
Até mesmo estudiosos mais ortodoxos do anarquismo passaram a ver o jornal com reservas. No final, a explosão da grande imprensa livre, os diferentes caminhos tomados pelo movimento estudantil, e mais desavenças e crises internas levariam O Inimigo do Rei ao silêncio. Ficou como um marco, na boa tradição anarquista, de senso de humor e sátira contra o governo, a Igreja, as tradições conservadoras de direita e de esquerda."
Em outro momento abordaremos o artigo e a monografia de Leonardo Pinto.
Este livro pode ser encontrado no Site da Editora Mauad.

criado por Jornalismo - FCS
18:41:12
Bernardo Kucinski vê a Imprensa Alternativa como oposição à Grande Imprensa até mesmo na questão Ética. Veja a opinião dele no link do vídeo, abaixo:
http://www.youtube.com/v/o9jaAZi8sjs

criado por Jornalismo - FCS
00:48:50