O Inimigo do Rei

Este Blog é resultado de pesquisa para o TCC, desenvolvida pelos alunos Carlos Baqueiro e Eliene Nunes, ambos cursando Jornalismo na Faculdade da Cidade de Salvador (FCS). O objeto de pesquisa é o jornal O Inimigo do Rei.

O Inimigo do Rei

Este Blog é resultado de pesquisa para o TCC, desenvolvida pelos alunos Carlos Baqueiro e Eliene Nunes, ambos cursando Jornalismo na Faculdade da Cidade de Salvador (FCS). O objeto de pesquisa é o jornal O Inimigo do Rei.
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Arquivo de: Setembro 2007

27.09.07

História de uma Transição

categorias: Matérias

 

É possivel, a partir das páginas das edições do jornal O Inimigo do Rei, fazer-se uma leitura crítica do que foi o período de transição democrática no Brasil.

Vários "editoriais" nas diversas edições contam e criticam a maneira como o governo do general João Figueiredo, por exemplo, trabalha com a idéia de anistia e redemocratização.

Melhor que nós mesmos falarmos aqui é mostrando as matérias.

Começamos com o texto "Uncle Sam is Coming" (parcialmente reproduzido), que foi publicado no Nº 01, referindo-se à viagem do presidente americano Jimmy Carter ao Brasil, no final de 1977.

"Como sempre acontece em nossa história, quem mais será atingido por reformas políticas, o povo, é mantido ao largo das decisões. O senador Portella viaja daqui, viaja dali, conversa com bispos e advogados. Todos arquitetam a "redemocratização" do país como se nós já tivéssemos vivido alguma vez na história numa democracia. Nunca houve democracia no Brasil. Portanto, deve-ser ser sincero pelo menos no vocabulário, já que os atos nunca o são. Se houver, haverá democratização. Mas tudo à revelia do povo.

Para sair do beco em que está desde finais de 1973, a "democracia relativa" (na palavra dos renomados cínicos) busca consenso entre as organizações mais representativas do País: religiosas, de profissionais liberais, etc.. Quando estiver pronto o que chamam de "institucionalização do regime", o povo receberá sem discutir, como mais um decreto: § 1º - a partir do dia tal trabalhador pode fazer greve, político pode se agremiar em partido, estudante pode fazer passeata.

Enfim, entenderam que greve, partido e passeata não alteram a estrutura de nenhum País, muito pelo contrário, bem comprometidos ajudam a manutenção do sistema, Quem mais compreende isto são os barões das multinacionais americanas. Não há porque oprimir povo algum. Partidos de esquerda? Estes desde que legalmente inscritos estão reconhecendo o sistema. Deles nada há a temer: vide Espanha, Portugal, França, Itália, etc.. Por entenderem isto, os americanos resolveram inaugurar a política dos direitos humanos.

Para os estudantes de Brasília que pediram à mulher do presidente americano para resolver os problemas políticos do regime forte vigente no Brasil, através de uma carta entregue à simpática Rosalyn, é chegada a chance de falar com o marido da destinatária: Jimmy Carter vem aí
".

22.09.07

Sobre a Confederação Operária Brasileira

categorias: Matérias

 

Em várias de suas edições, trabalhadores que colaboravam no jornal O Inimigo do Rei, publicavam matérias que iam de encontro ao que parecia ser o aparelhamento dos sindicatos pelos partidos. Nas matérias pretendiam deixar claro suas posições diametralmente contrárias a daqueles que esperavam transformar a sociedade participando do processo eleitoral, tornando os sindicatos cada vez mais dependentes dos partidos.

Em uma delas, na última edição do jornal, Nº22, em 1988, publicam a matéria Breve Histórico da COB, onde explicam o que foi a Confederação Operária Brasileira.

Além disso afirmam haver grupos organizando-se para uma possivel reconstrução da antiga confederação, com todos os seus princípios e doutrinas.

Ai vai o texto na íntegra:

"Muito pouca gente sabe, mas a força do Movimento Operário era bem maior no começo de século até 1934, porque os Sindicatos, Ligas e Uniões Operárias eram livres e não sofriam controle do Governo, dos Partidos Políticos e nem dos Patrões.

Foram essas Organizações, a grande maioria de orientação anarquista, que em 1906 realizaram o I Congresso Brasileiro e deliberaram pela necessidade de se criar uma Confederação, uma Central Sindical. Em 1908 a Confederação Operária Brasileira já editava o jornal “A Voz do Trabalhador” noticiando as lutas do proletariado do Brasil e do mundo.

A COB realizou seu II Congresso em 1913, tendo sido responsável pela deflagração da Greve Geral de 1907 pelas 8 horas de trabalho (aprovada no I Congresso) e responsável – junto com os anarquistas – pela deflagração da Campanha contra o Fascismo. Em 1917 são seus aderentes que promovem a Greve Geral que colocou São Paulo nas mãos dos operários.

Em 1920 a COB realiza seu terceiro e último Congresso.

Em 1934, após enfrentamentos com os fascistas e com o Governo, o movimento anarco-sindicalista sofre as maiores repressões, tendo muitos de seus militantes mortos, presos ou deportados.

A partir de 1934, Getúlio Vargas cria o Ministério do Trabalho, proíbe a existência de Sindicatos livres, cria o Imposto Sindical e a CLT, nela colocando – em forma de lei – todas as conquistas das lutas e greves anteriores. Getúlio promove a migração interna trazendo camponeses para a cidade e ajudando a indústria a eliminar os serviços especializados desempenhados por operários estrangeiros considerados como “agitadores”.

Em 1937 Getúlio dá um Golpe de Estado e impõe uma Ditadura. Entre os fatores de esvaziamento da luta sindical a partir dessa data, podemos citar o papel dos comunistas de apoio ao Governo na destruição dos Sindicatos Livres e do lançamento entre os operários de um ideal reformista de “tomada do poder pelo Partido Operário”; a criação de Sindicatos sustentados pelo próprio governo e a repressão feroz contra o movimento anarquista e anarco-sindicalista, pelo Governo e pelo PC.

De lá para cá nada mudou. Os Sindicatos continuam atrelados e nenhuma conquista verdadeira foi conseguida a partir de 1930. Os Sindicatos são hoje grandes aparatos financeiros, verdadeiros órgãos públicos administrados por pelegos e políticos, todos a usar o trabalhador.

Em maio de 1986 os anarco-sindicalistas realizaram um Congresso e uma jornada de memória aos cem anos dos mártires de Chicago e lá lançaram a bandeira da reconstrução da COB.

Com núcleos espalhados por vários Estados, os anarco-sindicalistas vêm batalhando por retomar a verdadeira prática revolucionária do sindicalismo, uma prática que não se identifica nem com a CUT e muito menos com CGT, ambas reformistas e atreladas a Governos e Partidos Políticos a se sustentar do roubo que é Imposto Sindical".

20.09.07

Mais Críticas a Esquerda

categorias: Matérias

Postamos hoje mais uma transcrição de texto escrito por Ideal Peres, desta vez com o pseudônimo Antonio Cavoqueiro, sobre o tal Partido de Trabalhadores que começava a ser esboçado naquele momento.

O texto foi publicado no nº 06 do Jornal O Inimigo do Rei, de julho de 1979.

Trancrevemos apenas a parte em que o autor põe em discussão suas discordâncias com as idéias lançadas por Lula, após sua aparição nas greves dos metalúrgicos de São Bernardo.

Ai vai:

TERIA SIDO “O LULA” PICADO PELA MOSCA AZUL ?

"É patente que alguma mosca azul já picou a epiderme de 'O Lula'. O badalado Partido dos Trabalhadores tem sido uma preocupação constante em seus pronunciamentos. Ainda agora em entrevista para o jornal Em Tempo, nº 65, 25 a 31 de maio, voltou a destacar que o 'partido dos assalariados', não pode excluir estudantes, setores da Igreja, profissionais liberais, etc.

Então, chega-se a uma conclusão lógica: o dito partido estará apoiado na massa trabalhadora e dirigido pela intelectualidade burguesa, como sempre aconteceu em todas as épocas. O Partido dos Trabalhadores é apenas mais um rótulo para tapear os trouxas e deslumbrados. E 'O Lula' deve estar muito conscientizado deste fato, tanto assim que agora vem com um papo amolecido de que existe um grupo de políticos dentro do MDB que deveriam participar das discussões sobre a formação do partido.

Parece que os caminhos do 'O Lula' começam a se delinear. Diz Sartre, em entrevista a Em Tempo, que: 'O partido é para mim uma forma crescentemente superada de relações entre os homens, é uma relação falsa'.

Estaria Inácio da Silva fomentando esse tipo de relação ? Será que já estamos em condições de responder 'Qual é a de Lula' ?"

Cansados de críticas à esquerda ? No próximo post mudaremos de assunto.

18.09.07

A Primavera de Praga

categorias: Matérias

A imagem acima, retirada do Nº03 do jornal O Inimigo do Rei, de outubro de 1978, lembrava os 10 anos da Primavera de Praga.

Através de uma matéria e da imagem os anarquistas do jornal se posicionavam a respeito do que consideravam um dos males do marxismo: a pretensa Ditadura do Proletariado.

Vamos ao texto. Nele poderemos entender o que foi a Primavera de Praga e muito da crítica anarquista aos marxistas:

"Na primavera de 1968 os tchecos experimentam o fim da censura à imprensa, o direito de viagens ao exterior, a livre discussão dos, até então, dogmas partidários.

Os operários discutiam nas fábricas o problema da autogestão das fábricas e em julho de 68 já se contavam 800 mil operários que participavam ativamente do controle dos seus locais de trabalho.

Mas a onda de liberdade começaria a incomodar a União Soviética porque os tchecos demonstravam interesse em transformar radicalmente sua sociedade, dinamizá-la e diminuir o papel centralizador do Partido. Além do mais, no campo econômico os tchecos estavam firmemente decididos a deixar de fazerem o papel de fornecedores de capitais para outros países da órbita soviética, e dividirem entre si mesmos os sucessos do seu desenvolvimento. É o que a União Soviética não aceitaria: controle operário da sociedade; socialismo com liberdade; fuga de sua tutela político-econômica.

Na noite de 20 de agosto de 1968 as tropas russas, secundadas pelas da Alemanha Oriental, Polônia, Hungria e Bulgária (a Romênia, apesar de membro do pacto de Varsóvia, se recusou a enviar tropas), iniciavam a ocupação do País, concretizada no dia 21. Nas medidas de “normalização” da vida tcheca, nos meses que se seguiram à Invasão, se notou um dos principais alvos da fúria do urso soviético: os conselhos operários eleitos durante a primavera foram, um a um, desmobilizados.

A União Soviética não admite que a classe operária assuma diretamente o Governo de nenhum país, isto frustraria o seu esquema ideológico de “estágio de ditadura do proletariado”. Os trabalhadores russos ainda “precisam” de seus guias salvadores, dos seus revolucionários profissionais, ou seja, de uma burocracia que se entulha de privilégios à custa do proletariado".

15.09.07

Trabalhadores Contra a Ditadura Militar

categorias: História

 

"A primeira ação em larga escala empreendida pelos trabalhadores no governo Geisel começou em maio de 1978 com uma greve branca... 2500 metalúrgicos da fábrica de caminhões e ônibus Saad-Scania... bateram o relógio de ponto, assumiram seus postos, cruzaram os braços, sentaram-se e recusaram-se a ligar suas máquinas".

Este texto se encontra no livro Brasil: de Castelo a Tancredo, escrito pelo brasilianista Thomas Skidmore, editado pela Paz e Terra, em 1991.

Os trabalhadores brasileiros começavam a se reorganizar, depois de muitos anos sendo reprimidos pelos governos militares.

É nesta conjuntura que tem início o processo a que se deu o nome de “Novo Sindicalismo”. Os operários retomam as suas ações mais organizadas e de resistência que já tinham tentado em Contagem e Osasco.

A visão de distensão rumo à democracia ajudou a concretizar as manifestações que viriam a acontecer em 1978, mas o que parece ter entornado os fatos a partir dali foi a situação econômica do país.

Após as crises do dólar e do petróleo no início dos anos 70, os investimentos internacionais diminuiriam, os juros aumentariam e internamente a inflação pularia de 18,5% a.a. no início do governo de Geisel e para 40% a.a. no seu final.

Opondo-se ao considerado pretenso discurso de “abertura” dos militares, jornais conhecidos como “nanicos” sobreviviam às custas de poucos militantes ousados.

“Movimento” era um daqueles jornais, e já na posse do General João Figueiredo, em março de 1979, declarava que “A ditadura não é mais aquela”, afirmando que "o povo saía novamente às ruas reivindicando melhores condições de vida e maior participação nos destinos do país".

É assim que o movimento operário restabelece seus vínculos com a política partidária, a partir da permissão provisória do Partido dos Trabalhadores em 1980.

Nas eleições de novembro de 1982 para governos de Estado, Senado, Câmara Federal e Assembléias Legislativas o PT conseguiu 1.589.641 votos; não elegeu nenhum governador, mas mostrou que detinha, pelo menos na simpatia, 3.3% dos votos dos eleitores, o que o classificava como 5° partido brasileiro, atrás somente do PMDB, PDS, PDT e PTB.

No próximo post traremos mais detalhes dos textos do jornal O Inimigo do Rei tratando dos conflitos entre os anarquistas e parte da esquerda, chamada por eles de autoritária, ou simplesmente marxista. Inclusive com as críticas à criação de um novo partido de trabalhadores, como já vimos em posts anteriores.