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Na Contra-Capa do número 20 do jornal O Inimigo do Rei, seus colaboradores citam várias coisas com as quais eles concordam, tanto para lutar (Greve Expropriadora), quanto para se deliciar (Sorvete de Mangaba).
Segundo as más línguas, esta página foi idealizada numa manhã ensolarada de Domingo, em uma das reuniões que o grupo da Bahia fazia semanalmente, antes da grata cerveja, tomada aos pés do Edifício Themis, na Praça da Sé, no centro de Salvador.
Na mesma edição há a preocupação, sempre encontrada nas outras edições, de informar o que é o jornal, como funciona, e o que há de diferente entre ele e outros jornais clássicos ou mesmo alternativos.
Ai vai o texto, na íntegra:
“O Inimigo do Rei é uma publicação de caráter autogestionário. É uma experiência nova no Brasil, um jornal sem censura de nenhum tipo. É feito e administrado pelos coletivos pró-federação anarquista, sendo propriedade deles.
Numa época que toda a imprensa alternativa está em crise ou desapareceu, quando só existem jornais de dois partidos comunistas com pequena circulação popular, ficando cada vez mais como jornal de circulação interna desses partidos, editamos “O Inimigo do Rei”, que chega ao número 20.
A única coisa que permite a sua manutenção, exclusiva pela venda, é a autogestão, a solidariedade dos coletivos nas vendas e na sua distribuição, é o jornal ser de fato de todos aqueles que participam desses coletivos. Ele só é possível de ser editado por ser feito inteiramente de acordo com as propostas anarquistas. Se fôssemos um bando de intelectuais não sairíamos dos primeiros números como tantas publicações que conhecemos.
COMO É UM JORNAL FEITO NESSES MOLDES, SÓ ESCREVEM PARA ELE AQUELE QUE FAZEM PARTE DOS COLETIVOS ANARQUISTAS. PARA NÓS, É FUNDAMENTAL QUE O TRABALHO INTELECTUAL SEJA RESULTADO DO TRABALHO DA MILITÂNCIA DIÁRTIA NAS REUNIÕES, PALESTRAS, ASSEMBLÉIAS E ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO ANARQUISTA HOJE NO BRASIL.
Intelectuais brasileiros, escritores de todos os tipos, hoje muito “anarquistas” para nosso gosto, por favor não nos mandem artigos porque a Bahia não tem autoridade para publicar nada. Um estudante secundarista que faça parte de um nosso coletivo, em qualquer cidade do Brasil, tem mais poder que nós para dizer o que vai sair se o seu coletivo possuí uma parte do espaço do jornal, naquele número. Não gastem o selo do correio. Não temos dinheiro para lhes devolver os originais. Não estamos interessados em “nível”. Achamos que isso é uma censura disfarçada e inventada pelos intelectuais burgueses para perseguirem-se uns aos outros. Nosso jornal reflete o pensamento do militante diário, daqueles que carrega panfletos nas sacolas.
Achamos que cada um pode refletir em palavras o que vive, com o quê se preocupa, muito mais do que gente que só quer “brilhar” e se auto-promover. Até agora, o “nível” tem sido mantido indiretamente. É a ironia da vida. Quem gosta de nivelar os outros fica sempre abaixo do nível. Nós não queremos nivelar. Queremos expressar. Mas expressar todos. Todos os que trabalham pelo movimento. Não aqueles que querem expressar suas individualidades burguesas para se sentir admirados em meios intelectuais.
Evidentemente, isso não nos interessa".

criado por Jornalismo - FCS
13:37:51
Outro assunto que despertava a fúria dos anarquistas enquanto agentes de mudanças sociais era a Educação.
Ai vai um trecho de um dos bons textos sobre aquele tema, apresentado na edição de número 21, em outubro de 1987:
"Boa parte das diferenciações sociais são produzidas por diferentes educações. Diferentes porque a instrução recebida pela classe operária, apesar de “gratuita”, é mantida pelo Estado, que a passa de acordo com os interesses da classe burguesa, já que esta se constitui no seu sustentáculo.
Isto vem reforçar a exigência de maior grau de escolaridade e/ou conhecimento para o exercício de certas atividades. Esse mecanismo funciona mais ou menos assim: a classe dominante exige, para o desempenho de qualquer trabalho não-braçal, um certo nível de escolaridade, porém esta mesma classe não permite à maioria da população o acesso à escolaridade exigida, determinando que quem detém o saber, detém o poder.
TODA A INSTRUÇÃO PARA AS MASSAS
Esse sistema que ajuda na perpetuação da classe burguesa no poder só se romperá quando houver “toda a instrução para as massas”, ou seja, quando todos tiverem acesso ao mais “alto grau” de escolaridade. Para que isso aconteça, é preciso que os benefícios e a compreensão da ciência estejam ao alcance de todos, afim de que todos possam exercer, tanto o trabalho manual, quanto o trabalho intelectual, possibilitando, assim, uma sociedade autogestionária, onde todos podem agir e pensar livremente.
Para reafirmar essa posição, terminamos o artigo com outra frase de Bakunin: 'Devemos rejeitar e combater a ciência burguesa do mesmo modo que devemos rejeitar e combater a riqueza da burguesia. Combate-las e rejeita-las no sentido de, ao destruir a ordem social que delas faz patrimônio uma e outra classe social, as reivindicar como bem comum de todo mundo'."

criado por Jornalismo - FCS
17:59:26
O texto que postamos hoje encontra-se na décima nona edição do jornal O Inimigo do Rei, de maio de 1987.
Ali, o Comitê de Defesa da Cidade e do Cidadão, conta a situação caótica em que se encontrava a segurança pública no Estado da Bahia. Ironicamente o texto critica a posição do que seria o tal governo da "mudança", que, segundo as campanhas políticas, viria a democratizar o estado.
Não é difícil lembrar que diversas lideranças da Bahia se juntaram ao PMDB para eleger Waldir Pires na eleição de 1986. Lomanto Junior, Prisco Viana, Nilo Coelho, entre outros se uniram para derrotar o que consideravam um mal para a Bahia: ACM, falecido no dia de hoje.
"Em nenhum outro estado do Brasil há tantos linchamentos e tantos assassinatos perpetrados por policiais como na Bahia. Para um governo do PMDB, cuja bandeira principal é a “mudança”, está situação deveria ser uma das principais questões administrativas.
Só durante os primeiros 45 dias do governo Waldir Pires, ocorreram oito linchamentos, na capital e interior. A Policia Militar, por seu turno, já tem até um sargento envolvido em assalto a banco junto com seus comandados e um alto oficial envolvido no assassinato das crianças Geovana e Leonardo.
Para o tipo de governo que estamos assistindo está situação parece não incomodar, pois não há uma análise da infra-estrutura da sociedade. Todas as “mudanças” que dizem estar ocorrendo, são todas superestruturais. Xinga-se muito o ex-governador direitista e seus asseclas, mas as novas autoridades (e, aí, pode-se generalizar para todo o Brasil), não ficam nem um pouco distantes.
TORTURA PARA VALER
Já não passa um dia em que não chegam às redações das rádios e dos jornais, queixas de pessoas pobres e negras (os dois ingredientes são fundamentais num estado onde vigora o “apartheid” oficioso, pois embora de maioria negra, todas as autoridades e a burguesia são brancas). De que foram espancadas por policiais civis e militares.
As delegacias da Polícia Civil do Estado da Bahia transformaram-se em centros de torturas e há casos, por exemplo, de tortura e espancamento de menores, por estarem vendendo picolé em estação de transbordo ou por estar mercando bugigangas em via pública. Como as vítimas são pobres, negras e analfabetas vão às redações, mas morrem de medo de serem identificadas e sofrerem represálias dos policiais.
Na polícia civil é corrente a prática dos agentes e alguns delegados, segundo contam os ditos marginais (a fronteira entre os dois grupos é tênue, quase imperceptível), terem seus ladrões (segundo a gíria deste submundo, “gados”), isto é, aqueles delinqüentes que compram a sua impunidade dividindo o fruto do roubo com os agentes. Os soldados da PM, inclusive, são chamados de “Papai Noel” pelos agentes da Civil, pois a PM é sempre obrigada a levar a uma delegacia os autores de roubos. Se o produto da ação criminosa é valioso e se o ladrão se dispuser a dar a maior parte, sai livre e, daí por diante, protegido.
Agora, aí daquele que não se dispuser a entregar o ouro (ainda de acordo com a gíria)! É espancado violentamente. Mas é violentamente mesmo, não é brincadeira não. Depois é serviciado pelos chefes das celas, todos acobertados pelas autoridades policiais. Estes que não partilham o roubo, inclusive, começam a ser perseguidos pelos agentes e delegados, que os inscrevem num tático livro negro. Temos conhecimento de jovens que resolveram não mais delinqüir, depois de torturados nas delegacias baianas e que não puderam voltar à vida normal, pois a Polícia aonde os vê, os prende, mesmo sem flagrante, mesmo sem nenhum crime a imputar. É o preço que se paga por não repartir o roubo: tem que morrer marginal. Este é o caso de Florisvaldo Ferreira dos Santos, o “Sabão”, de Pé de areia, em Camaçari, que tenta uma vida normal, mas que tanto a PM como a Polícia Civil da área não permite, lembrando a máxima de Jean Genet, segundo a qual, “não haveria Polícia se não houvesse o ladrão” e, portanto, este tipo de policial fabrica o marginal se o marginal não existe no real de sua vida. Foi preto, foi pobre, é sério candidato a tomar porrada em delegacia".

criado por Jornalismo - FCS
08:44:17
Trazemos hoje a terceira parte da entrevista com Antonio Mendes.
O entrevistado fala da criação do jornal O Inimigo do Rei, e das relações que tinha com anarquistas de outros estados e países.

criado por Jornalismo - FCS
14:38:57 
Aqui vai mais uma parte da entrevista feita com Antonio Mendes.
Nela Antonio Mendes fala sobre sua chegada a Salvador, até a formação do grupo que criou o jornal O Inimigo do Rei.

criado por Jornalismo - FCS
13:24:29