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Dentro do jornal O Inimigo do Rei sempre houve, desde o seu nascimento, aqueles que se preocupavam em relatar e analisar as coisas que aconteciam no mundo do trabalho.
Aproveitamos um dos artigos, assinado por Carlos Baqueiro (por coincidência do destino, um dos editores deste blog), que foi publicado na edição 19, em maio de 1987, há exatos 20 anos, para homenagear todos aqueles que já haviam lutado e hoje continuam lutando por melhores condições de vida para o trabalhador, sem as amarras dos governos, dos partidos ou das igrejas:
O Anarquismo e o Escravo Moderno
Informava-se, no Congresso da Confederação Operária Brasileira em 1906, o seguinte, sobre as condições de trabalho dentro da indústria:
'Imaginem-se em um lugar onde trabalhem centenas de operários sem sequer uma janela. Pois isto é o que há em quase todas as fabricas. As que têm janelas não as abrem por não quererem que seus escravos percam tempo olhando a rua.'
E hoje...?
Hoje, temos janelas nos locais de trabalho, e estas podem permanecer abertas. Mas deixa de ser escravo o trabalhador que pode observar a rua, sem ter a liberdade de sair e andar sobre ela, na hora que desejar, mesmo sem o consentimento de um supervisor, que representa o patrão ou governo?
Será que deixa de ser escravo aquele que dentro de complexos industriais (verdadeiros campos de concentração), não tem a liberdade de andar por suas vielas, distantes até 10 km do mais próximo centro urbano? Será humano o trabalhador que não tem sequer o direito a saúde, aspirando todos os dias, durante horas e horas, substâncias insalubres, que provocarão no mínimo, uma sinusite?
Valeu a pena "viver", ou seria sobreviver, doze horas por dia, a serviço de um grupo de pessoas que se servem da sua ignorância, para enriquecerem mais a cada hora de seu trabalho?
Esquecer tudo o que se sofre e como se é oprimido ainda hoje dentro das indústrias, desde as fábricas de "chips" para computadores até as petroquímicas, com o trabalhador alienado, abrindo válvulas ou aquecendo barras de silício, é estupidez.
Compreendendo a opressão, o operário estará verificando a necessidade de agir, diretamente, buscando as saídas, como procuravam os trabalhadores brasileiros das duas primeiras décadas do século XX, através de federações que agiam sem pactos com partidos ou com governo, numa luta que convergia nacionalmente para a Confederação Operária.
É por tudo isto, e muito mais, que os anarquistas se reorganizam hoje, em grupos anarco-sindicalistas.

criado por Jornalismo - FCS
20:58:52 
O Inimigo do Rei defendia as idéias anarquistas. De todos os anarquismos, se podemos assim dizer.
Diversas foram as vozes no passado que escolheram o anarquismo como ideário.
Uma delas foi a de um tipógrafo frances chamado de P.J. Proudhon.
Escolhemos um trecho de suas idéias lançadas na última folha da edição de nº 15 do jornal para mostrar o que ele pensava dos governos e do Estado:
"Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude (...). Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido.
É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetido à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado.
Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral !
Oh !, personalidade humana ! Como foi possível deixares-te afundar, durante sessenta séculos , nesta abjeção ?"

criado por Jornalismo - FCS
23:59:25 
Leonardo Pinto, em sua monografia de término do Curso de História na UNEB de Santo Antonio de Jesus, transcreve vários trechos de uma entrevista que fez ao professor de filosofia, Ricardo Liper, um dos criadores do O Inimigo do Rei.
Em um dos trechos publicados, Liper lembra da posição de indivíduos da esquerda (marxistas, entre eles), quanto aos posicionamentos do jornal:
"A esquerda dizia que O Inimigo do Rei estava mais preocupado em criticar à esquerda que ao próprio regime militar. Mas nós estávamos realmente preocupados em criticar o autoritarismo, independente da bandeira, porque sempre entendemos que a verdade era muito importante e não queríamos ser envolvidos na cortina de fumaça que os políticos queriam fazer. E eles são mestre na simulação. E foi isso que explodiu. Daí querer sugerir que não criticávamos a direita, isso é não ter lido o jornal direito".
Em outra parte da entrevista Liper defende a idéia de radicalidade do jornal:
"Quanto ao fato de O Inimigo do Rei ter inaugurado uma nova linguagem na imprensa anarquista, nós estávamos, na verdade, radicalizando um pouco o que jornais alternativos como O Pasquim e Movimento fizeram, a linguagem que Paulo Francis e Jaguar já estavam divulgando n’O Pasquim. Estávamos apenas radicalizando. Eles não tinham coragem de tocar em determinados termos e nós tocamos, o que fazia o jornal vender. Nós tínhamos ousadia em dizer coisas que ninguém dizia. (...) Dizer que O Inimigo do Rei inaugurou uma fase do anarquismo no Brasil, isso é boa vontade de Renato Ramos. Eu até me sinto lisonjeado, mas ele exagerou. Provamos sim, que se se quer, se trabalha. Se consegue distribuir, enfrentar as dificuldades econômicas. (...) Nós tivemos talvez um papel de ter feito uma imprensa modesta. O mais importante é que aglutinamos um grupo de pessoas que conseguiu, com uma linguagem nova, com temas novos – que hoje são comuns no Brasil, como o movimento gay, que não havia naquele momento; tratava-se de uma coisa escondida, não se falava disso. O próprio movimento anarquista aceitava, mas era uma coisa meio complicada. Hoje há grupos gays em todas as capitais, com jornais, etc".

criado por Jornalismo - FCS
23:12:01 
O candidato do Partido Democrata, Jimmy Carter, havia sido eleito para governar os EUA por 4 anos. As celebrações aos Primeiros de Maio já conseguiam levar mais gente que antes. As manifestações e greves por melhores salários e condições de trabalho já pipocavam com mais frequência. E uma abertura "lenta e gradual" já rondava nossa incipiente "Democracia Relativa".
Era essa parte da conjuntura do Brasil quando foi publicado O Inimigo do Rei pela primeira vez, em Outubro de 1977. E dentro dele podemos achar matérias que opinavam justamente a respeito daquele estado de coisas pelas quais o país passava naquele momento.
Uma daquelas matérias transcrevemos abaixo. Uncle Sam is Comming, ou seja, Tio Sam está Chegando, referência justamente a vinda ao Brasil do presidente americano eleito.
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Como sempre acontece em nossa história, quem mais será atingido por reformas políticas, o povo, é mantido ao largo das decisões. O senador Portella viaja daqui, viaja dali, conversa com bispos e advogados. Todos arquitetam a "redemocratização" do país como se nós já tivéssemos vivido alguma vez na história numa democracia. Nunca houve democracia no Brasil. Portanto, deve-ser ser sincero pelo menos no vocabulário, já que os atos nunca o são. Se houver, haverá democratização. Mas tudo à revelia do povo.
Para sair do beco em que está desde finais de 1973, a "democracia relativa" (na palavra dos renomados cínicos) busca consenso entre as organizações mais representativas do País: religiosas, de profissionais liberais, etc.. Quando estiver pronto o que chamam de "institucionalização do regime", o povo receberá sem discutir, como mais um decreto: § 1º - a partir do dia tal trabalhador pode fazer greve, político pode se agremiar em partido, estudante pode fazer passeata.
Enfim, entenderam que greve, partido e passeata não alteram a estrutura de nenhum País, muito pelo contrário, bem comprometidos ajudam a manutenção do sistema, Quem mais compreende isto são os barões das multinacionais americanas. Não há porque oprimir povo algum. Partidos de esquerda? Estes desde que legalmente inscritos estão reconhecendo o sistema. Deles nada há a temer: vide Espanha, Portugal, França, Itália, etc.. Por entenderem isto, os americanos resolveram inaugurar a política dos direitos humanos.
Para os estudantes de Brasília que pediram à mulher do presidente americano para resolver os problemas políticos do regime forte vigente no Brasil, através de uma carta entregue à simpática Rosalyn, é chegada a chance de falar com o marido da destinatária: Jimmy Carter vem aí Mais importante que qualquer movimentação estudantil ou religiosa por "liberdades democráticas", a chegada do presidente americano vem sacramentar a democratização do País.
A democracia brasileira será outorgada como tudo de resto em nossa história: independência, república, etc.. Para passar de uma ditadura para uma democracia será necessário apenas mudar de nome. Como trocar de camisa. O sistema brasileiro depois da derrota do "milagre econômico", que hoje ninguém assume a maternidade, se viu em contingência de mudar. Jimmy Carter surgiu no momento exato. Com todas as ditaduras ameaçadas pela recessão econômica mundial, sendo questionadas por todos os lados, melhor é deixar o inconformismo jorrar pelos canais competentes da democracia burguesa, e por isto ele vem aí. Vai mostrar que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, para o Peru, para o Equador...
O MDB infelizmente para si próprio, vê com desalento suas bandeiras serem tomadas pela ARENA, agora, o partido mais interessado em liberdade e democracia. Apesar de desorientado o MDB ainda tem a Constituinte, este cavalo de Tróia que ninguém debate e ninguém entende. De qualquer modo, com ou sem Constituinte, ninguém é cego para deixar de perceber que a democracia vem aí. Outorgada, como tudo no Brasil, como o povo sabendo dos fatos já prontos, tudo feito à sua revelia. Afinal, a marca registrada do Sistema (que não é este de 64, é o mesmo de sempre de nossa história), fica. O importante não é sanar a fome. Importante é deixar o faminto fazer uma passeata em repúdio à fome. Se as multinacionais controlam os recursos do País, não importa. Importa é que você pode se afiliar a um partido de esquerda nacionalista que mande um deputado fazer discurso no Congresso contra as multinacionais. Tio Sam já sabe disto tudo e Jimmy Carter vem aí...

criado por Jornalismo - FCS
22:15:00 
Tony Pacheco relata, neste último trecho de sua entrevista, algumas lembranças de fatos ocorridos na década de 80 com referência ao jornal O Inimigo do Rei, identificando os tipos de matérias que diferenciavam o jornal de outros alternativos, além de diferenciá-lo do próprio movimento anarquista clássico, ligado ao anarco-sindicalismo.
"Você não vai construir uma sociedade melhor apenas colocando operários no poder. Agente tá com um ai e tá vendo o que acontece... O negócio não é um operário no poder, mas um movimento social que acabe com o poder".

criado por Jornalismo - FCS
23:34:15